Este fogo vê-se, queima e mata

2014-04-18 18.05.07

Enquanto Marcelo percorre o país, fazendo algo que nunca jamais nenhum dirigente político fez em Portugal, não hão-de faltar as almas cínicas dizendo que tudo não passa de uma encenação ou que é tudo um grande exagero.
No entanto, ao “habituem-se” do governo não se seguiu um desamerdem-se de Marcelo, e lá foi ele Portugal acima abraçar aquelas pessoas que eu, tu, os nossos amigos, todos conhecemos.

 
Sim, nós conhecemo-los

 
São nossos conhecidos, são da nossa família, Já os vimos noutras aldeias, outras vilas do país. Já falamos com eles, já lhes compramos mel, castanhas e vinho, já lhes dissemos olá e adeus. São estes portugueses ou familiares deles que morreram e estão em risco. É este Portugal que está em risco.
Quando digo que os conhecemos, refiro-me principalmente (mas não só) a nós, os que não nasceram nos centros urbanos, os da província ou os que lá têm fortes ligações. Sabemos bem quem são estas pessoas. São a nossa avó, o nosso avô, a nossa tia. Por isso é que nos dói tanto, e também, talvez, por isso doa mais a Marcelo. Ele também os conhece, são amigos de sempre, embora não se conheçam. Talvez, ainda por isso, não doa tanto aos partidos que apoiam o governo, cujos apoiantes estão em locais onde o fogo pouco chega. Não digo que não lhes sintam a dor e a indignação, de certeza que sim, mas não têm propriamente um incentivo político para as exprimir como costumavam fazer dantes.
Já eu, tu, conhecemo-las e reconhecemo-las melhor ainda quando as vemos chorar no ombro de Marcelo, esse ser tão surpreendente que, afinal, não se cansa de fazer coisas simples e óbvias.

 
“Vou dar-lhes um abraço.” E lá foi.

 
São estas pessoas, que têm vindo a ser rodeadas de matéria altamente inflamável – e, certamente, em muitos casos auto-rodearam-se, porque a certa altura lhes pareceu bom, rentável e ninguém com responsabilidades lhes disse que podia ser perigoso, pelo contrário – que nunca mais terão sossego.

 
O Verão está a chegar

 
Agora, a partir da primavera, estarão com o coração nas mãos até outubro, novembro, ou sabe-se lá quando terminarão estes verões que aí vêm. Deus queira que não, mas é possível que vastas áreas do centro e norte de Portugal passem a ser, durante longos períodos de tempo, zonas de perigo de morte.
Será assim para os residentes e para os visitantes – talvez estes encontrem outras opções para o turismo de natureza que não implique rodearem-se de matéria altamente inflamável, sob temperaturas escaldantes, num país com dificuldades primárias de organização logística, muitos maluquinhos e negócios de fogo pouco recomendáveis.
Todas estas pessoas nunca saberão quando irão ficar, a meio da noite, cercadas pelas chamas, ou numa estrada qualquer a caminho de qualquer lado, ou numa autoestrada a regressar de um almoço com amigos.

 
Agora, Portugal é assim. Não todo o Portugal, mas grande parte de Portugal.
Entretanto, a estas pessoas que conhecemos tão bem, a estas pessoas que também somos nós, dizem:

 
Emigrem.
Perdão, não foi isto, foi
Habituem-se.

 

P.S. Acabo de ver nas notícias que se reuniu um conselho de ministros extraordinários. Ficaram reunidos durante 10 horas(!). Parece que, fundamentados na sua vasta experiência no assunto (vários são biólogos, engenheiros florestais, especialistas em fogo etc), aprovaram umas medidas. É caso para dizer: são mesmo extraordinários!

 
P.S. 2 Notei também com alívio que o ministro nr.º 1 conseguiu finalmente acertar com a forma do arco nas sobrancelhas que lhe dá um ar tristonho e combalido.

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Fiquei mais chocado com os atentados de Paris do que com o de Beirute. Serei hipócrita?

Foi assim no Charlie Hebdo. Foi assim nos atentados de sexta-feira passada. De cada vez que há um atentado num local que nos é culturalmente próximo e todos nos consternamos, levantam-se logo vozes indignadas e moralizantes, gritando que a solidariedade não é igual para todos, que houve um atentado em Beirute e ninguém lhe ligou, que a vida vale mais em Paris do que no médio oriente, e por aí adiante.

Isto é um bocado irritante, porque uma pessoa fica consternada (com os atentados em Paris), e ainda por cima se sente culpada por não ficar consternada com outros acontecimentos similares (por exemplo, com o atentado em Beirute), aos quais, porque somos uns hipócritas, não damos tanta importância.

Como me apetece ficar consternado sem culpa nem a sensação de que sou um hipócrita, tentarei explicar:

1

Desde o Charlie Hebdo aconteceram imensos atentados por esse mundo fora. Não vi nenhum destes arautos da boa consciência a mostrar consternação. Parece que a obrigação de nos consternamos com os atentados mais distantes e muito frequentes surge apenas quando a consternação geral por estes atentados mais próximos é activada. Ou seja, quando não há atentados em Paris, não há necessidade de me consternar com atentado nenhum, e ninguém repara nisso. Quando acontece em Paris ou outra cidade similar, devo consternar-me com todos. Será esta a regra? É difícil de perceber. Ou então, a solução é não se ficar consternado com atentado nenhum, e assim trataremos todos os atentados com uma indiferença niveladora.

Ma eu estou muito consternado com o que aconteceu em Paris e menos com o que aconteceu em Beirute. Serei hipócrita?

2

Talvez não. Pus-me a pensar sobre o assunto, e, como sempre, correndo o risco de dizer asneiras, ocorreram-me analogias absurdas, mas que podem ser elucidativas. Cá vai uma: todos os dias há inúmeros acidentes na estrada por este país fora, são imensos, e todos me passam ao lado. No entanto, se alguém que eu conheço tem um acidente, eu fico consternado. Ora…mas então, não deveria ficar consternado com todos igualmente? Estarei a ser hipócrita?

Coro indignado: “Mas tu não conheces pessoalmente todos os parisienses, seu manipulador!”

Certo, mas sinto uma afinidade cultural com Paris que não sinto com Beirute. Já estive em Paris várias vezes, arranho umas palavras de francês, já li livros de autores franceses que me influenciaram imenso, tenho amigos que vivem em Paris. Podia aumentar a lista de afinidades ao infinito, mas acho que já se percebeu a ideia. É esta afinidade que faz com que eu sinta os atentados em Paris no meu corpo. E é a inexistência desta afinidade com Beirute que faz com que os lamentáveis atentados que lá aconteceram não me toquem tanto e passem discretos no rodapé do televisor. Isto não significa que os de Paris sejam mais importantes, ou que a vida em Paris seja mais valiosa, ou que não devamos dirigir a nossa consternação e o nosso repúdio para todas as atrocidades do mundo. Significa apenas que existem distâncias psicológicas, que poderão, sempre, ser superadas pelo advento de uma sincera fraternidade universal, a qual, neste mundo cada vez mais entrincheirado, não sei bem porquê, não me parece muito provável. Ainda que as nossas vozes devam sempre passar por cima dos muros, a verdade é que o nosso coração será sempre mais sensível aos que nos são mais próximos. E isto não é censurável.

Já agora, seguindo a mesma ordem de ideias (sempre em direcção ao absurdo), tenho a certeza de que os franceses ainda estão mais consternados do que os portugueses. Afinal, foi no seu país! Serão hipócritas? Ou deveriam consternar-se igualmente com os de Beirute? E, claro, os parisienses mais do que a generalidade dos franceses. Foi mesmo lá na cidade! E sem esquecer os habitantes dos bairros onde ocorreram os atentados, foi lá no bairro! E, claro, os familiares das pessoas que perderam a vida nos atentados devem estar mais consternadas com os atentados de Paris do que com o atentado de Beirute. É uma lógica até fácil de entender, não é? É a mesma lógica que explica a onda de solidariedade que aconteceu há uns anos em Portugal relativamente a Timor- Leste. Apesar de todas as atrocidades que ocorriam no mundo naquele tempo (há sempre atrocidades) escolhemos Timor. Fomos colectivamente hipócritas por focar a nossa atenção naquela e não nas outras todas, porque temos maior afinidade com aquele povo em particular?

Não nos sentimos igualmente próximos de todas as pessoas que existem, e isto também se aplica às percepções culturais.

3

A propósito: curiosamente, muita gente acenou com o atentado de Beirute, esquecendo-se de que no Iraque, no mesmo dia, também ocorreu um atentado. O que nos leva a esta simples e ingénua constatação: estamos constantemente a receber notícias de atentados no médio oriente. Talvez o do Iraque não tenha sido tão mencionado (que eu tenha visto), pelos defensores da consternação equitativa, como o de Beirute, simplesmente porque os atentados no Iraque são tão horrivelmente frequentes, que nos tornamos um pouco frios e distantes, não porque somos maus, mas porque, sendo completamente impotentes perante tanto sofrimento, temos de desligar um pouco os sensores, ou seria impossível ter alguma alegria neste mundo tão atribulado. Não é hipocrisia, é gestão (leia-se talvez protecção) emocional. Quando acontece mais perto (culturalmente ou geograficamente), esta gestão é impossível e a consternação irrompe espontaneamente. Porque a consternação não é racional. Se fosse, não seria consternação, seria calculismo.

Como diz o povo, quanto mais perto caem as bombas, mais as ouvimos.

Bem, eu sei lá. Pode ser esta a explicação. Ou então é hipocrisia. Ou então, somos apenas humanos.

A pegada emocional – Amigo(a), cheiras bem das emoções?

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Fala-se imenso de pegada ecológica. De forma geral, consiste no impacto ambiental que cada indivíduo deixa na sua passagem por este mundo assombroso. Faz reciclagem? Utiliza transportes públicos? Utiliza a água com responsabilidade? Ótimo. Se respondeu que sim às questões anteriores, é um bom samaritano e merece uma medalha. Falemos então da sua pegada emocional.

Conheci em tempos um senhor que tinha uma pequena drogaria. Uma vez fui lá comprar um corta-unhas porque precisava mesmo de um corta-unhas e, diga-se de passagem, são mais difíceis de encontrar do que o que se imagina. Depois disso voltei lá muitas vezes e aconselhei amigos e amigas a irem lá também comprar coisas. Já não precisava de corta-unhas mas ia lá comprar qualquer coisa que estivesse à mão. Pasta medicinal couto, um dedal e um carrinho de linhas foram algumas das coisas que levei. E o meu regresso não teve a ver com a qualidade do metal usado no corta-unhas nem com uma qualquer inclinação retro.

Voltei porque o dono da drogaria era um senhor especial. Ele deixava (não sei se ainda existe) uma pegada emocional extremamente positiva em cada pessoa que lá entrava. Os meus amigos e amigas que lá foram confirmaram isso. Havia ali qualquer coisa diferente a acontecer. Era um mestre zen que geria uma drogaria de bairro.

Diga-se que à primeira vista nada de especial acontecia. Ele não proferia frases sábias nem se apresentava de túnica. Não levitava em posição de lótus nem caminhava sobre as águas. Era apenas simpático. De uma simpatia genuína que irradiava à sua volta, que nos forçava implacável e suavemente a corresponder, a entrar no mesmo estado, a tentar estar à altura daquela figura especial. E assim acontecia. Quem entrava sorumbático e pesado, saía sorridente e as crises pessoais e do mundo de súbito não pareciam tão graves.

O senhor da drogaria tinha a capacidade de produzir estados e fazia-o sem esforço. Era algo que funcionava em autogestão, irradiando. E assim ia semeando os efeitos da sua presença. Nós, que sabíamos, íamos lá porque ele nos forçava, sem desconfiar, a melhorar a nossa própria presença. Dito de outra forma: a sermos pessoas melhores.

Comunicar é produzir efeitos. Não comunicar, é…impossível. 

Portanto, as pessoas estão sempre a produzir efeitos. Nelas próprias, quando comunicam consigo próprias, e com os outros, quando comunicam com eles. Os efeitos produzidos podem ir desde o empregado de café desagradável que consegue por artes mágicas transmitir o seu estado de espírito para as pessoas à sua volta, como as pessoas à sua volta que, imbuídas do mesmo espírito, o replicam na próxima interação, até ao desconhecido que, no centro de uma cidade cheia de gente, passa por mim e me envia um sonoro bom dia sem motivo aparente, fazendo-me ganhar o dia.

Cada pessoa é um agente retransmissor. Cada pessoa emite – vamos chamar-lhe assim – uma vibração. A vibração que cada pessoa emite é o resultado, na maior parte dos casos, de automatismos.

Ora veja-se, talvez tenhamos sido injustos com o empregado antipático. É possível que ele não seja o criador do contágio, mas apenas mais um agente retransmissor. Se assim foi, podemos ver as emoções como uma entidade abstrata que circula por aí através das pessoas, que, conscientemente ou inconscientemente, as adquirem e passam-nas adiante.

Anjos e demónios

Deliremos um pouco: imaginemos a consciência de cada indivíduo como um centro de comandos que está constantemente a ser disputado por inúmeros estímulos. Como se fosse um território estratégico que gera guerras entre os vários países que o desejam (onde é que já vimos isto?). Nas histórias infantis, costumávamos ver um anjinho e um diabinho no ombro da personagem principal, procurando influenciar o seu destinatário, esforçando-se por criar um estado. Ou seja, o anjinho lutava para que uma determinada “força” assumisse o controlo da consciência, e, uma vez lá, esta força produziria um efeito determinado, interno e externo – interno, no tipo de sensações, reflexões e conclusões que produziria, e externo, no tipo de comportamento suscitado. O diabinho fazia o mesmo. Fosse qual fosse a força vencedora, o comportamento produzido seria diferente. Um pouco como quando votamos nas eleições. Ou não.

Ora, o tipo de forças que deixamos assumir o controlo da consciência determina o tipo de efeito que produzimos à nossa volta. Quando alguém está constantemente ocupado por emoções tensas, afiadas, aguçadas e cheias de arestas, essa tensão irá propagar-se à sua volta, contaminando os transeuntes mais sensíveis que se cruzam no seu caminho, os seus amigos, os seus familiares e quem sabe até os seus peixinhos dourados. Este rasto é a sua pegada emocional. 

A que cheiram as emoções?

É vulgar um amigo dizer a outro: “hoje cheiras um bocado mal, há quanto tempo não tomas banho?” Pessoalmente, às vezes apetece-me dizer: “hoje cheiras um bocado mal das emoções”. O impacto produzido não é diferente e desconfio que as emoções mal cheirosas se entranhem mais no sistema.

Mas atenção. Toda a gente se suja todos os dias. Toda a gente cheira mal se não tratar de si. A higiene emocional, tal como a higiene física, é uma batalha corpo a corpo, realizada todos os dias, às vezes várias vezes por dia, e é bom que se preparem os higienistas emocionais para inúmeras derrotas. Se virmos o nosso software emocional como um processador de emoções – cujo funcionamento ideal consiste em transformar emoções pesadas em aprendizagem, expansão e auto-realização – é natural que muitas vezes a capacidade de processar seja menor do que as solicitações exigidas, principalmente nestes dias tão caóticos e adoradores de sarcasmo e indignação. Por isso, muitas pessoas contam até 10 quando estão perante uma torrente emocional. Isso proporciona-lhes, literalmente, tempo para processar.

Atualmente, a ênfase da comunicação é colocada no recetor, que funciona, praticamente, como uma estação de tratamento de informação, modelando-a, compondo-a de acordo com as suas inclinações pessoais, o seu passado, o seu interesse, a sua noção de autoimportância, os seus mecanismos de defesa do ego, em suma, as suas escolhas. Muitas vezes, estas escolhas não são conscientes. O resultado final de todo este processo é uma resposta, sendo esta resposta acompanhada por uma pegada emocional. E como se transforma a pegada? Ao longo dos séculos, inúmeras religiões, correntes filosóficas e ciências comportamentais têm procurado responder a esta questão através de inúmeras estratégias e conceitos mais ou menos operativos.

No passado, alguém chegou mesmo a dizer: “Amai-vos uns aos outros”.

Em tempos tão cínicos, soa um pouco meloso, mas não está mal visto.

Os cães, os gatos e o bullying

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Às vezes, parece que nos esquecemos. Somos animais. Provavelmente os animais mais (auto) domesticados de todos, mas não deixamos de ser animais, e, portanto, de ter respostas e comportamentos animalescos (no mau sentido) e brutais. Uma das funções da organização social entre os humanos é precisamente reprimir, conter, ou preferivelmente dirigir, “afinar”, transmutar ou civilizar a besta latente que há dentro de nós.

Tenho uma cadela minha amiga. Chama-se Pantufa (nome fictício). Também há um gato, que é meu vizinho, do qual também me considero amigo, e, às vezes, protector (embora ele não me ligue nenhuma). Certa vez, estava a Pantufa de visita lá em casa, quando, num dos muitos passeios diários, eles lá se encontraram frente a frente. De súbito, um software com milhões de anos foi activado – coisa bonita de se ver – e é fácil de imaginar o que se passou. A Pantufa a correr, o gato a saltar, o humano (eu) a gritar para a cadela, a dona do gato a gritar para o gato: “foge Crispim!!”

É um software com milhões de anos, portanto. Os humanos, no entanto, correm na sua tentativa de civilizar os animais. Mas é fácil de perceber. Se eu fosse um cão e visse um gato – vamos pensar apenas naqueles cães que são maiores do que gatos – seria natural que eu o perseguisse. Tem o tamanho ideal, e, ao mesmo tempo, oferece um bom desafio porque se mexe bem. Tem várias vantagens: permite-me fazer exercício, praticar a destreza, e, ao mesmo tempo, aumentar a minha auto-confiança, se o apanhar. Ao mesmo tempo, embora por vezes responda afiadamente, não oferece qualquer tipo de risco real. Perfeito.

Porque, afinal, eu, se fosse um cão, não teria qualquer tipo de software ético que me dissesse: “ei, respeita o gato.” Seria estranho ver a Pantufa revirar os olhos, e, num lampejo de consciência, dizer a si própria: “mas o que estou a fazer? Porque persigo desta forma este gato?” Este lampejo de consciência permitiria à minha amiga cadela anular o tal software com milhões de anos, e substituí-lo por outro, diferente, que, por ser mais aparente nos animais humanos, tem sido chamado de “humanidade”. Talvez se outros animais tivessem inventado este conceito – os gatos, por exemplo – ele agora se chamasse “gatalidade”, e podemos imaginar os gatos em grandes tertúlias dizendo uns aos outros que era preciso observar os ratos com gatalidade, respeitá-los, e tudo isso.

Seja como for, parece que os humanos têm estado na linha da frente no desenvolvimento dessa ideia abstracta, esse fundo ético (que já foi contestado, é certo), e tanto achamos que é mesmo uma coisa de humanos, que lhe demos o nome da nossa própria espécie. Haja confiança. Mas ainda bem. É um anti vírus contra a bestialidade latente em cada pessoa.

Até porque, quando executamos a o software da bestialidade, somos talvez os piores dos animais. Apanhar os mais fracos, encostá-los à parede e extorquir-lhes a auto-estima e a confiança para aumentar a nossa. Desde há muito que os humanos praticam este desporto. Pratica-se nas ruas, nos escritórios, nas lojas de conveniência, nas escolas. Aos humanos não lhes basta a carne dos outros animais. Também lhes queremos apanhar a alma, a confiança, o rasgo, e, assim, tal como da carne dos animais formamos os nossos músculos, da força vital dos outros humanos fazemos a nossa. (Podes fazer uma pausa aqui para pensar um bocadinho neste pormenor, se quiseres).

Todos o fazemos, ou fizemos alguma vez, ou faremos. Talvez nem todos, mas quase.

Ah, humanidade.

Falta aqui qualquer coisa, não é? Qualquer coisa que temos, enquanto cidadãos e cidadãs, menosprezado, qualquer coisa em que não temos investido o suficiente. Há algo de maravilhoso, nesta condição humana, que estamos a deixar escapar por entre os dedos.

Que pena, não é?

Se sabes o que é, se já a encontraste, pratica-a, se faz favor. Ou então, como cães, continuaremos a ladrar a todos os gatos que nos passam à frente. Mas pior.

O porquê de as tuas boas razões te poderem transformar num bom robot

Rousseau, Henri, enfant acec une marionnette

Rousseau, Henri, enfant acec une marionnette

Certa vez, um famoso comunicador e especialista em desenvolvimento pessoal, Richard Bandler, foi convidado por um grupo de feministas para proferir uma palestra sobre comunicação e relacionamento humano. Ora, Bandler, apesar de especialista em comunicação, está longe de ser consensual. As suas estratégias pedagógicas passam pela ideia – às vezes correcta –  de que a maior provocação pode suscitar os melhores resultados. Claro que, muitas vezes, demasiada provocação suscita apenas imensa resistência.

Não obstante, Bandler começou a palestra (aproximadamente) da seguinte forma:

“Minhas lindas! Na verdade, não sei o que estão aqui a fazer nem por que me convidaram. Eu tenho ideias muito concretas sobre as mulheres. Na minha opinião, vocês deviam estar na cozinha, ou a cuidar de crianças, ou a fazer uma dessas coisas que as mulheres estão destinadas a fazer pela força da lei natural. O que fazem aqui afinal? O que é isso de feminismo? É uma coisa com que as meninas se ocupam agora porque se cansaram do tricot?”

Como se pode imaginar, o burburinho na sala foi imenso. Rasgar de vestes, ranger de dentes, gritos, recriminações, vaias, desmaios, chiliques variados.

Quando a poeira assentou e a maior parte das participantes, fervilhantes, se preparava para abandonar o local, Bandler disse:

“Pois bem, senhoras. O que é que preferem? Ir embora e viver como autómatos, nos quais qualquer um que se aproxime, carrega nos botões certos e: “luzes, câmara, acção! O filme desenrola-se!” Ou preferem ficar e aprender alguma coisa sobre manipulação, poder pessoal e liberdade?”

A maior parte ficou. Outras, porque tinham o entendimento cheio de auto-importância e indignação cega, não perceberam bem e foram-se embora, confusas, zangadas, e de vestes rasgadas.

É normal, há coisas que algumas mulheres simplesmente não entendem (piscadela).

PORQUE SOU (quase) FEMINISTA

Salome

Lou-Salomé, Paul Rée e Friedrich Nietzsche

UMA PERSPECTIVA SURPREENDENTE… Rapazes, preparem-se. Informo-vos que aprendi, num episódio do Dr. House, que somos todos mulheres. Não adianta reclamar, é um facto científico, confirmei na internet. Não há moral nem condicionamento cultural que o modifique (bendita ciência). Somos todos mulheres até que, em determinado momento do desenvolvimento do feto, os ovários descem e se transformam em testículos. Portanto, tu, ó machão, deixa-me que te diga que tens aí um belo par de ovários descaídos.

PORQUE VIMOS AOS PARES AFINAL? Segundo uma teoria bastante consensual, o sexo serve para aumentar a diversidade dentro da espécie e assim escapar com mais facilidade aos predadores, aumentando as hipóteses de sobrevivência no grande jogo da selecção natural. Portanto, homens e mulheres constituem UM ser que existe em versão stereo, para fins meramente evolutivos que se relacionam com a sobrevivência da espécie. Ou seja, é praticamente um procedimento administrativo. Uma pergunta que se pode colocar neste momento é: na relação entre as duas “partes” desta espécie, e no contexto do parágrafo anterior, a dominação de um género por outro pode trazer alguma vantagem evolutiva? A pergunta é legítima, a natureza às vezes prega partidas destas. Por exemplo, pessoas com narizes grandes muitas vezes se safaram dos predadores por sentirem o seu odor ao longe, e isto superou a dificuldade que tiveram em encontrar parceiros por terem os narizes tão grandes (carece de fonte). Ninguém sabe a resposta, e porque cada estudo que diga que sim, muitos outros irão dizer que não. Mesmo assim, podemos supor que, mesmo tendo havido alguma vantagem em tempos muito remotos, tal já não se justificaria hoje. Por outro lado, o facto de existirem na pré-história (e não só) civilizações matriarcais leva a crer que não. Não há vantagem nenhuma neste excesso mundial de testosterona (gelo fino, adiante).

Escultura Minóica

Escultura Minóica

MAS ENTÃO… Se assumirmos que não se explica, em termos evolutivos, a estratégia da dominação, de onde vem este ascendente masculino, e porque é que a frase “o lugar das mulheres é na cozinha” nos parece tão natural?

Bom, como diz o povo: se não é biológico, é sociológico.

Há muitos anos atrás, ainda na pré-história, existiram algumas sociedades matriarcais, que adoravam a natureza, serpentes (onde já ouvi eu falar de serpentes?) e uma deusa mãe, que gerava e nutria toda a vida na terra. Não chamamos a estas comunidades “matriarcais” porque as mulheres tivessem todo o poder, mas por serem matrilineares, em que a descendência era feita pela via materna. Tanto quanto se sabe, estas sociedades eram perfeitamente igualitárias e possuíam algumas características curiosas, nomeadamente o facto de serem extremamente pacifistas – dedicavam-se alegremente ao comércio, à agricultura e às artes – e, muitas vezes, as suas cidades não eram sequer fortificadas.

Não sofriam de avidez, ou vontade de se superiorizar, abocanhar, extirpar, decapitar, conquistar, exaurir, submeter, colonizar, explorar, humilhar ou dominar os seus semelhantes. (a não ser, imagino eu, por mútuo acordo e em situações especiais, aqui não se julga ninguém). Em termos taoistas – nem toda a gente ouviu falar de taoísmo, mas toda a gente conhece os seus famosos princípios fundamentais: yin e yang – estas sociedades estavam em perfeito equilíbrio, com as quantidades certas de feminilidade e masculinidade. Não eram sociedades passivas, mas também não eram conquistadoras.

NÃO HÁ BEM QUE SEMPRE DURE… Subitamente (o que, neste caso, significa um bom par de milhares de anos) a deusa mãe foi sendo substituída por um deus guerreiro, que era tão grande que ocupava a cama toda. Autocrata, justiceiro e muitas vezes vingativo, expandiu-se, talvez devido ao medo que inspirava, como se, lá na terra dos princípios fundamentais, o principio jang quisesse, de repente, submergir o princípio yin, quebrando o equilíbrio universal. Assim, o que é feminino foi escondido – em muitos casos, foi literalmente escondido atrás de um véu – ou reprimido: “pareces uma menina a chorar” ou delimitado “as mulheres devem fazer apenas isto e aquilo” e, ainda pior, tantas vezes tristemente queimado na fogueira. A repressão das mulheres é a manifestação material desta supressão do que é feminino. Desde então, inúmeras narrativas têm sido contadas e recontadas, com o intuito de produzir uma determinada cultura, ou conjunto generalizado de convicções e comportamentos que consideramos adquiridos e “naturais”. A mais conhecida diz-nos que Eva foi criada a partir da costela de Adão e que, a sacripanta, em vez de se sentir grata, cede à serpente malvada (olha: a serpente de novo!) e enfia a maçã pela garganta do Adão abaixo com os resultados que se conhecem, tornando-se culpada de praticamente todos os males que entretanto o mundo conheceu. Senhores eclesiásticos, isto não foi bonito. E este é apenas o exemplo mais conhecido. Há imensos.

Ah, mas é preciso admirar quem teve a ideia de associar essa maçã àquela saliência na tiróide, que apenas surge nos homens, e chamar-lhe maçã-de-adão, como que um símbolo fisiológico e permanente da ignomínia feminina. Assim, de cada vez que uma sopeira arrebitasse cachimbo, o senhor podia apontar para a garganta e dizer “não te chega o que já fizeste?” Ah, humanidade….Foi um toque de mestre. Costuma pensar-se que a genialidade publicitária e do marketing é uma coisa contemporânea, mas este pessoal já sabia muito.

Este estado de coisas tem-se arrastado ao longo de milénios. Em grande medida (alerta de ideia ultrasimplificada), apesar de algumas sociedades já estarem muito mais abertas relativamente à questão do género (veja-se o último festival da canção) continuamos a executar o programa das conquistas, do poder, do domínio, da exploração, da avidez, do controlo, da expansão, do crescimento do PIB – tudo (são os taoístas que o dizem, eu não sei nada disto) características associadas ao princípio masculino em desequilíbrio – o princípio masculino não tem mal nenhum, mas é como se, de repente, nunca mais chovesse. Sabemos como são os lugares onde nunca chove. E eu não sou taoísta, portanto isto vale o que vale, mas desconfio que a supressão de feminilidade nas vivências, interacções e aspirações humanas pode estar relacionada com as atribulações e sobressaltos que este mundo vem atravessando.

…NEM MAL QUE NUNCA TERMINE Enfim, não são necessárias mais Margaret Tatchers. A questão não tem tanto a ver com as mulheres, como com os princípios. Precisamos é de Gandhis, Mandelas, Malalas, sejam homens ou mulheres. Precisamos do outro lado da receita. Há uma sobremesa deliciosa, chamada Romeu e Julieta. Queijo com marmelada, para quem não sabe. Quem gosta, sabe também que o segredo reside no equilíbrio perfeito entre os dois sabores. Demasiado queijo, e não sabe a nada. Demasiada marmelada, e fica muito doce. Portanto…sou eu feminista? Sim e não. Isso seria como chamar marmeladista a alguém que se vê perante um excesso de queijo no seu Romeu e Julieta. Não é marmeladista, é equilibrista. Porque sabe que é no equilíbrio, no fio da navalha, que reside a perfeição.

Nota final O processo de transformação do matriarcado em patriarcado é longo, complexo, e cheio de matizes, pelo que a simplificação deste assunto originará, muito provavelmente, mal entendidos, compreensões limitadas e distorcidas, e, muitas vezes demagógicas. Este texto, se tanto, é um panfleto publicitário que procura levar atenção a uma narrativa que, pela sua importância, se quer aprofundada, para que o presente se torne mais claro, e o futuro mais brilhante. Para saber-se mais sobre esta história e como ela influenciou o mundo nos últimos milénios, e continua a influenciar, pode começar-se por explorar o livro da socióloga Riane Eisler – o Cálice e a Espada. Há em PDF aqui.

Porque sou floxi…flexo…foxil… FLEXITARIANO!

Art of Balance

Zomb, Ilya, Art of Balance

Na verdade, só recentemente soube que este termo existe. Há alguns meses que me auto intitulo vegetariano com excepções. Ou seja…sou vegetariano, mas, uma vez por mês, permito-me comer carne e/ou peixe. Como um não fumador que numa festa lá crava um cigarro a alguém e depois esquece o assunto.

Afinal, já devemos ser alguns. E ainda bem. Há vários motivos para se ser veg… perdão…fonixteriano. Depois de explorados, uma pessoa dá  por si a perguntar-se: mas afinal, que razões existem para não se ser felixoteriano? Correndo o risco de o estragar, pus-me a pensar no assunto e encontrei pelo menos três categorias de argumentos, cada uma delas suficiente – para algumas pessoas mas não para mim, que precisei de um incentivo maior – para mudar de vida gastronómica. As três juntas constituem um tridente imbatível. Mas claro, há ideias que são tão boas que nos recusamos a prestar-lhes atenção porque vão deixar rasto. Seguem elas:

1 – O ARGUMENTO DA “CARNE FAZ MAL!”

Na verdade, este não me diz muito. O meu corpo gosta de tudo e não é esquisito. Tanto absorve um bife do lombo como um rebento de soja. No entanto, para muitas pessoas, este é o motivo fundamental, muito embora seja, geralmente, limitado a carnes vermelhas e por aí além. Não sei, não percebo nada de nutrição, mas, como se diz, é fazer as contas. Ainda na linha deste argumento, existem aqueles estudos que afirmam que os humanos são originalmente vegetarianos e não estão biologicamente preparados para a carne ou o peixe. Para ilustrar esta ideia, coloque-se uma pessoa num curral com uma vaca, sem qualquer tipo de instrumento ou tecnologia (como a capacidade de acender uma fogueira ou uma faca afiada) e diga-se-lhe: agora trata lá de comer essa vaca, sem garras nem caninos especialmente desenvolvidos. Enfim, segundo este argumento, foi a tecnologia que permitiu aos humanos tornarem-se omnívoros. Eu, na verdade, não sei. É o que se diz. É evidente que o mesmo exemplo não serve para os peixes, os ovos, ou animais mais pequeninos e tenros, como as lagartixas ou os insectos. O que sei é que o meu corpo, apesar de gostar imenso de carne e peixe, anda feliz com esta minha opção de me tornar prefixotariano. E quer continuar. Adiante.

2 – O ARGUMENTO DA CRUELDADE ANIMAL

Este é delicado. A mim já me toca mais. Quando era miúdo e a minha avó se punha a matar frangos, mandava-me para longe, porque supostamente a “pena” que eu sentia deles dificultava-lhe o trabalho. Pelo que percebo agora, eles viam-me como um aliado e resistiam mais, esperando que eu fosse lá salva-los. Como se a minha avó fosse permitir uma coisa dessas. Ali, naquele galinheiro, era ela quem controlava o destino, a vida, a morte. E (perdoem-me os defensores dos animais mais e menos radicais, por quem tenho muito respeito) estava bem assim. E claro, apesar da tal “pena”, no fim, eu lá absorvia os frangos todo contente, tornando-os parte do meu próprio corpo, perpetuando, através deste ser individual e insignificante que sou, essa coisa inefável e inexprimível que é a Vida. Ou seja, comia-os. Mas isto, confesso, apesar da pena que sentia dos frangos, não me impressionava assim tanto. É o mesmo sentimento que tenho por uma zebra que é caçada por uma leoa na TV (sim, porque à savana eu nunca fui, embora em criança tenha tentado arrancar um rato da boca do gato lá de casa, sem sucesso). Sinto pena, “Foge! Corre, corre, oh não!”, mas quem sou eu para discutir as soluções da natureza? A vida propaga-se através da absorção de formas de energia por outras, e isto está para além de qualquer conceito de bem e mal. Bem sei que tudo isto é discutível, não é como se tivesse ideias definitivas sobre o assunto.

O que não é discutível é crueldade industrial com que os animais são tratados para alimentar tantos humanos ávidos de carne e peixe. É fazer as contas, como quem diz, é procurar no Google e ver as galinhas serem aspiradas por uma máquina, que as recolhe e envia diretamente para uma linha de produção onde os pescoços são cortados e as penas arrancadas. Ou aquelas gaiolas onde os porcos crescem, tão apertadas que os corpos se deformam. Há imensos exemplos, toda a gente sabe como é. Para mim (não pretendo que isto seja uma verdade universal) isto é diferente da dona Deolinda que criou um porco, lhe deu um nome, e ao fim de uns anos lá o matou no meio de grande festa e uma lágrima no canto do olho porque afinal o Eustácio já era um amigo lá da casa. A dona Deolinda aproxima-se mais daqueles nativos americanos que matavam os búfalos, pediam desculpa, agradeciam ao espírito do animal e lá o absorviam. A industrialização da morte é a antítese disso e implica uma instrumentalização, uma alienação, um desrespeito total e absoluto pela Vida. Mas a avidez de tantos milhares de milhões de humanos desejosos de carne e peixe exige a industrialização, e a industrialização exige a alienação (e a alienação, uma vez instalada, dá um pontapé no rabo à consciência.)

E, finalmente, a gota de água que faltava.

3 – O ARGUMENTO DA SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL

Confesso que, apesar da indignação que sinto com a industrialização da morte, e do bem que o meu corpo se sente como metafisicotariano, estes argumentos não foram, durante muito tempo, suficientes. O meu corpo, essa criança mal-educada, adora carne e de peixe, que há-de fazer? Mas é assim a mudança: um dos lados vai pesando mais e mais, até o peso ser suficiente para levar o prato da novidade para o outro lado, e, de repente, lá no prato tenho rodelas de curgete (vai aprender a escrever courgette!) em vez de lombinhos de porco. E tudo muda.

O argumento que me tornou fleximaxitoriano foi o da sustentabilidade ambiental. Quando soube que a floresta amazónica (e tantas outras) está a ser derrubada – ei, é da floresta amazónica que estamos a falar! – fundamentalmente para produção agrícola que serve para alimentar a produção agro- pecuária, algo clicou cá dentro. O consumo exagerado de carne é absolutamente insustentável, desde logo porque duplica o espaço necessário para o cultivo de alimentos. Isto sem falar das emissões de metano (não consigo deixar de me rir ao pensar nelas, é como se fosse a grande vingança das vacas), ou dos consumos astronómicos de água necessários para, por exemplo, produzir um hambúrguer. (Não sei quais são, não me lembro, mas são chocantes, informe-se se faz favor.) Apesar da falta de eloquência aqui nos detalhes estatísticos, estou convencido que o consumo sôfrego de carne e peixe é um dos comportamentos mais decisivos no choque ambiental que os humanos estão a infligir ao planeta.

Há coisas que só conseguimos fazer de olhos fechados, não é?

Por tudo isto, decidi tornar-me floxitariano. Porque gosto e respeito muito o mundo em que vivemos, (basta olhar para os outros para ver como este é especial), não quero participar nesse KO planetário que lhe está a ser aplicado. E isto, gente, é apenas o começo. O abrir dos olhos é uma coisa que nunca mais se acaba.

Agora vou dar um afago à Terra e pedir desculpas.