Salome

Lou-Salomé, Paul Rée e Friedrich Nietzsche

UMA PERSPECTIVA SURPREENDENTE… Rapazes, preparem-se. Informo-vos que aprendi, num episódio do Dr. House, que somos todos mulheres. Não adianta reclamar, é um facto científico, confirmei na internet. Não há moral nem condicionamento cultural que o modifique (bendita ciência). Somos todos mulheres até que, em determinado momento do desenvolvimento do feto, os ovários descem e se transformam em testículos. Portanto, tu, ó machão, deixa-me que te diga que tens aí um belo par de ovários descaídos.

PORQUE VIMOS AOS PARES AFINAL? Segundo uma teoria bastante consensual, o sexo serve para aumentar a diversidade dentro da espécie e assim escapar com mais facilidade aos predadores, aumentando as hipóteses de sobrevivência no grande jogo da selecção natural. Portanto, homens e mulheres constituem UM ser que existe em versão stereo, para fins meramente evolutivos que se relacionam com a sobrevivência da espécie. Ou seja, é praticamente um procedimento administrativo. Uma pergunta que se pode colocar neste momento é: na relação entre as duas “partes” desta espécie, e no contexto do parágrafo anterior, a dominação de um género por outro pode trazer alguma vantagem evolutiva? A pergunta é legítima, a natureza às vezes prega partidas destas. Por exemplo, pessoas com narizes grandes muitas vezes se safaram dos predadores por sentirem o seu odor ao longe, e isto superou a dificuldade que tiveram em encontrar parceiros por terem os narizes tão grandes (carece de fonte). Ninguém sabe a resposta, e porque cada estudo que diga que sim, muitos outros irão dizer que não. Mesmo assim, podemos supor que, mesmo tendo havido alguma vantagem em tempos muito remotos, tal já não se justificaria hoje. Por outro lado, o facto de existirem na pré-história (e não só) civilizações matriarcais leva a crer que não. Não há vantagem nenhuma neste excesso mundial de testosterona (gelo fino, adiante).

Escultura Minóica

Escultura Minóica

MAS ENTÃO… Se assumirmos que não se explica, em termos evolutivos, a estratégia da dominação, de onde vem este ascendente masculino, e porque é que a frase “o lugar das mulheres é na cozinha” nos parece tão natural?

Bom, como diz o povo: se não é biológico, é sociológico.

Há muitos anos atrás, ainda na pré-história, existiram algumas sociedades matriarcais, que adoravam a natureza, serpentes (onde já ouvi eu falar de serpentes?) e uma deusa mãe, que gerava e nutria toda a vida na terra. Não chamamos a estas comunidades “matriarcais” porque as mulheres tivessem todo o poder, mas por serem matrilineares, em que a descendência era feita pela via materna. Tanto quanto se sabe, estas sociedades eram perfeitamente igualitárias e possuíam algumas características curiosas, nomeadamente o facto de serem extremamente pacifistas – dedicavam-se alegremente ao comércio, à agricultura e às artes – e, muitas vezes, as suas cidades não eram sequer fortificadas.

Não sofriam de avidez, ou vontade de se superiorizar, abocanhar, extirpar, decapitar, conquistar, exaurir, submeter, colonizar, explorar, humilhar ou dominar os seus semelhantes. (a não ser, imagino eu, por mútuo acordo e em situações especiais, aqui não se julga ninguém). Em termos taoistas – nem toda a gente ouviu falar de taoísmo, mas toda a gente conhece os seus famosos princípios fundamentais: yin e yang – estas sociedades estavam em perfeito equilíbrio, com as quantidades certas de feminilidade e masculinidade. Não eram sociedades passivas, mas também não eram conquistadoras.

NÃO HÁ BEM QUE SEMPRE DURE… Subitamente (o que, neste caso, significa um bom par de milhares de anos) a deusa mãe foi sendo substituída por um deus guerreiro, que era tão grande que ocupava a cama toda. Autocrata, justiceiro e muitas vezes vingativo, expandiu-se, talvez devido ao medo que inspirava, como se, lá na terra dos princípios fundamentais, o principio jang quisesse, de repente, submergir o princípio yin, quebrando o equilíbrio universal. Assim, o que é feminino foi escondido – em muitos casos, foi literalmente escondido atrás de um véu – ou reprimido: “pareces uma menina a chorar” ou delimitado “as mulheres devem fazer apenas isto e aquilo” e, ainda pior, tantas vezes tristemente queimado na fogueira. A repressão das mulheres é a manifestação material desta supressão do que é feminino. Desde então, inúmeras narrativas têm sido contadas e recontadas, com o intuito de produzir uma determinada cultura, ou conjunto generalizado de convicções e comportamentos que consideramos adquiridos e “naturais”. A mais conhecida diz-nos que Eva foi criada a partir da costela de Adão e que, a sacripanta, em vez de se sentir grata, cede à serpente malvada (olha: a serpente de novo!) e enfia a maçã pela garganta do Adão abaixo com os resultados que se conhecem, tornando-se culpada de praticamente todos os males que entretanto o mundo conheceu. Senhores eclesiásticos, isto não foi bonito. E este é apenas o exemplo mais conhecido. Há imensos.

Ah, mas é preciso admirar quem teve a ideia de associar essa maçã àquela saliência na tiróide, que apenas surge nos homens, e chamar-lhe maçã-de-adão, como que um símbolo fisiológico e permanente da ignomínia feminina. Assim, de cada vez que uma sopeira arrebitasse cachimbo, o senhor podia apontar para a garganta e dizer “não te chega o que já fizeste?” Ah, humanidade….Foi um toque de mestre. Costuma pensar-se que a genialidade publicitária e do marketing é uma coisa contemporânea, mas este pessoal já sabia muito.

Este estado de coisas tem-se arrastado ao longo de milénios. Em grande medida (alerta de ideia ultrasimplificada), apesar de algumas sociedades já estarem muito mais abertas relativamente à questão do género (veja-se o último festival da canção) continuamos a executar o programa das conquistas, do poder, do domínio, da exploração, da avidez, do controlo, da expansão, do crescimento do PIB – tudo (são os taoístas que o dizem, eu não sei nada disto) características associadas ao princípio masculino em desequilíbrio – o princípio masculino não tem mal nenhum, mas é como se, de repente, nunca mais chovesse. Sabemos como são os lugares onde nunca chove. E eu não sou taoísta, portanto isto vale o que vale, mas desconfio que a supressão de feminilidade nas vivências, interacções e aspirações humanas pode estar relacionada com as atribulações e sobressaltos que este mundo vem atravessando.

…NEM MAL QUE NUNCA TERMINE Enfim, não são necessárias mais Margaret Tatchers. A questão não tem tanto a ver com as mulheres, como com os princípios. Precisamos é de Gandhis, Mandelas, Malalas, sejam homens ou mulheres. Precisamos do outro lado da receita. Há uma sobremesa deliciosa, chamada Romeu e Julieta. Queijo com marmelada, para quem não sabe. Quem gosta, sabe também que o segredo reside no equilíbrio perfeito entre os dois sabores. Demasiado queijo, e não sabe a nada. Demasiada marmelada, e fica muito doce. Portanto…sou eu feminista? Sim e não. Isso seria como chamar marmeladista a alguém que se vê perante um excesso de queijo no seu Romeu e Julieta. Não é marmeladista, é equilibrista. Porque sabe que é no equilíbrio, no fio da navalha, que reside a perfeição.

Nota final O processo de transformação do matriarcado em patriarcado é longo, complexo, e cheio de matizes, pelo que a simplificação deste assunto originará, muito provavelmente, mal entendidos, compreensões limitadas e distorcidas, e, muitas vezes demagógicas. Este texto, se tanto, é um panfleto publicitário que procura levar atenção a uma narrativa que, pela sua importância, se quer aprofundada, para que o presente se torne mais claro, e o futuro mais brilhante. Para saber-se mais sobre esta história e como ela influenciou o mundo nos últimos milénios, e continua a influenciar, pode começar-se por explorar o livro da socióloga Riane Eisler – o Cálice e a Espada. Há em PDF aqui.

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