Os cães, os gatos e o bullying

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Às vezes, parece que nos esquecemos. Somos animais. Provavelmente os animais mais (auto) domesticados de todos, mas não deixamos de ser animais, e, portanto, de ter respostas e comportamentos animalescos (no mau sentido) e brutais. Uma das funções da organização social entre os humanos é precisamente reprimir, conter, ou preferivelmente dirigir, “afinar”, transmutar ou civilizar a besta latente que há dentro de nós.

Tenho uma cadela minha amiga. Chama-se Pantufa (nome fictício). Também há um gato, que é meu vizinho, do qual também me considero amigo, e, às vezes, protector (embora ele não me ligue nenhuma). Certa vez, estava a Pantufa de visita lá em casa, quando, num dos muitos passeios diários, eles lá se encontraram frente a frente. De súbito, um software com milhões de anos foi activado – coisa bonita de se ver – e é fácil de imaginar o que se passou. A Pantufa a correr, o gato a saltar, o humano (eu) a gritar para a cadela, a dona do gato a gritar para o gato: “foge Crispim!!”

É um software com milhões de anos, portanto. Os humanos, no entanto, correm na sua tentativa de civilizar os animais. Mas é fácil de perceber. Se eu fosse um cão e visse um gato – vamos pensar apenas naqueles cães que são maiores do que gatos – seria natural que eu o perseguisse. Tem o tamanho ideal, e, ao mesmo tempo, oferece um bom desafio porque se mexe bem. Tem várias vantagens: permite-me fazer exercício, praticar a destreza, e, ao mesmo tempo, aumentar a minha auto-confiança, se o apanhar. Ao mesmo tempo, embora por vezes responda afiadamente, não oferece qualquer tipo de risco real. Perfeito.

Porque, afinal, eu, se fosse um cão, não teria qualquer tipo de software ético que me dissesse: “ei, respeita o gato.” Seria estranho ver a Pantufa revirar os olhos, e, num lampejo de consciência, dizer a si própria: “mas o que estou a fazer? Porque persigo desta forma este gato?” Este lampejo de consciência permitiria à minha amiga cadela anular o tal software com milhões de anos, e substituí-lo por outro, diferente, que, por ser mais aparente nos animais humanos, tem sido chamado de “humanidade”. Talvez se outros animais tivessem inventado este conceito – os gatos, por exemplo – ele agora se chamasse “gatalidade”, e podemos imaginar os gatos em grandes tertúlias dizendo uns aos outros que era preciso observar os ratos com gatalidade, respeitá-los, e tudo isso.

Seja como for, parece que os humanos têm estado na linha da frente no desenvolvimento dessa ideia abstracta, esse fundo ético (que já foi contestado, é certo), e tanto achamos que é mesmo uma coisa de humanos, que lhe demos o nome da nossa própria espécie. Haja confiança. Mas ainda bem. É um anti vírus contra a bestialidade latente em cada pessoa.

Até porque, quando executamos a o software da bestialidade, somos talvez os piores dos animais. Apanhar os mais fracos, encostá-los à parede e extorquir-lhes a auto-estima e a confiança para aumentar a nossa. Desde há muito que os humanos praticam este desporto. Pratica-se nas ruas, nos escritórios, nas lojas de conveniência, nas escolas. Aos humanos não lhes basta a carne dos outros animais. Também lhes queremos apanhar a alma, a confiança, o rasgo, e, assim, tal como da carne dos animais formamos os nossos músculos, da força vital dos outros humanos fazemos a nossa. (Podes fazer uma pausa aqui para pensar um bocadinho neste pormenor, se quiseres).

Todos o fazemos, ou fizemos alguma vez, ou faremos. Talvez nem todos, mas quase.

Ah, humanidade.

Falta aqui qualquer coisa, não é? Qualquer coisa que temos, enquanto cidadãos e cidadãs, menosprezado, qualquer coisa em que não temos investido o suficiente. Há algo de maravilhoso, nesta condição humana, que estamos a deixar escapar por entre os dedos.

Que pena, não é?

Se sabes o que é, se já a encontraste, pratica-a, se faz favor. Ou então, como cães, continuaremos a ladrar a todos os gatos que nos passam à frente. Mas pior.

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