A pegada emocional – Amigo(a), cheiras bem das emoções?

munch

Fala-se imenso de pegada ecológica. De forma geral, consiste no impacto ambiental que cada indivíduo deixa na sua passagem por este mundo assombroso. Faz reciclagem? Utiliza transportes públicos? Utiliza a água com responsabilidade? Ótimo. Se respondeu que sim às questões anteriores, é um bom samaritano e merece uma medalha. Falemos então da sua pegada emocional.

Conheci em tempos um senhor que tinha uma pequena drogaria. Uma vez fui lá comprar um corta-unhas porque precisava mesmo de um corta-unhas e, diga-se de passagem, são mais difíceis de encontrar do que o que se imagina. Depois disso voltei lá muitas vezes e aconselhei amigos e amigas a irem lá também comprar coisas. Já não precisava de corta-unhas mas ia lá comprar qualquer coisa que estivesse à mão. Pasta medicinal couto, um dedal e um carrinho de linhas foram algumas das coisas que levei. E o meu regresso não teve a ver com a qualidade do metal usado no corta-unhas nem com uma qualquer inclinação retro.

Voltei porque o dono da drogaria era um senhor especial. Ele deixava (não sei se ainda existe) uma pegada emocional extremamente positiva em cada pessoa que lá entrava. Os meus amigos e amigas que lá foram confirmaram isso. Havia ali qualquer coisa diferente a acontecer. Era um mestre zen que geria uma drogaria de bairro.

Diga-se que à primeira vista nada de especial acontecia. Ele não proferia frases sábias nem se apresentava de túnica. Não levitava em posição de lótus nem caminhava sobre as águas. Era apenas simpático. De uma simpatia genuína que irradiava à sua volta, que nos forçava implacável e suavemente a corresponder, a entrar no mesmo estado, a tentar estar à altura daquela figura especial. E assim acontecia. Quem entrava sorumbático e pesado, saía sorridente e as crises pessoais e do mundo de súbito não pareciam tão graves.

O senhor da drogaria tinha a capacidade de produzir estados e fazia-o sem esforço. Era algo que funcionava em autogestão, irradiando. E assim ia semeando os efeitos da sua presença. Nós, que sabíamos, íamos lá porque ele nos forçava, sem desconfiar, a melhorar a nossa própria presença. Dito de outra forma: a sermos pessoas melhores.

Comunicar é produzir efeitos. Não comunicar, é…impossível. 

Portanto, as pessoas estão sempre a produzir efeitos. Nelas próprias, quando comunicam consigo próprias, e com os outros, quando comunicam com eles. Os efeitos produzidos podem ir desde o empregado de café desagradável que consegue por artes mágicas transmitir o seu estado de espírito para as pessoas à sua volta, como as pessoas à sua volta que, imbuídas do mesmo espírito, o replicam na próxima interação, até ao desconhecido que, no centro de uma cidade cheia de gente, passa por mim e me envia um sonoro bom dia sem motivo aparente, fazendo-me ganhar o dia.

Cada pessoa é um agente retransmissor. Cada pessoa emite – vamos chamar-lhe assim – uma vibração. A vibração que cada pessoa emite é o resultado, na maior parte dos casos, de automatismos.

Ora veja-se, talvez tenhamos sido injustos com o empregado antipático. É possível que ele não seja o criador do contágio, mas apenas mais um agente retransmissor. Se assim foi, podemos ver as emoções como uma entidade abstrata que circula por aí através das pessoas, que, conscientemente ou inconscientemente, as adquirem e passam-nas adiante.

Anjos e demónios

Deliremos um pouco: imaginemos a consciência de cada indivíduo como um centro de comandos que está constantemente a ser disputado por inúmeros estímulos. Como se fosse um território estratégico que gera guerras entre os vários países que o desejam (onde é que já vimos isto?). Nas histórias infantis, costumávamos ver um anjinho e um diabinho no ombro da personagem principal, procurando influenciar o seu destinatário, esforçando-se por criar um estado. Ou seja, o anjinho lutava para que uma determinada “força” assumisse o controlo da consciência, e, uma vez lá, esta força produziria um efeito determinado, interno e externo – interno, no tipo de sensações, reflexões e conclusões que produziria, e externo, no tipo de comportamento suscitado. O diabinho fazia o mesmo. Fosse qual fosse a força vencedora, o comportamento produzido seria diferente. Um pouco como quando votamos nas eleições. Ou não.

Ora, o tipo de forças que deixamos assumir o controlo da consciência determina o tipo de efeito que produzimos à nossa volta. Quando alguém está constantemente ocupado por emoções tensas, afiadas, aguçadas e cheias de arestas, essa tensão irá propagar-se à sua volta, contaminando os transeuntes mais sensíveis que se cruzam no seu caminho, os seus amigos, os seus familiares e quem sabe até os seus peixinhos dourados. Este rasto é a sua pegada emocional. 

A que cheiram as emoções?

É vulgar um amigo dizer a outro: “hoje cheiras um bocado mal, há quanto tempo não tomas banho?” Pessoalmente, às vezes apetece-me dizer: “hoje cheiras um bocado mal das emoções”. O impacto produzido não é diferente e desconfio que as emoções mal cheirosas se entranhem mais no sistema.

Mas atenção. Toda a gente se suja todos os dias. Toda a gente cheira mal se não tratar de si. A higiene emocional, tal como a higiene física, é uma batalha corpo a corpo, realizada todos os dias, às vezes várias vezes por dia, e é bom que se preparem os higienistas emocionais para inúmeras derrotas. Se virmos o nosso software emocional como um processador de emoções – cujo funcionamento ideal consiste em transformar emoções pesadas em aprendizagem, expansão e auto-realização – é natural que muitas vezes a capacidade de processar seja menor do que as solicitações exigidas, principalmente nestes dias tão caóticos e adoradores de sarcasmo e indignação. Por isso, muitas pessoas contam até 10 quando estão perante uma torrente emocional. Isso proporciona-lhes, literalmente, tempo para processar.

Atualmente, a ênfase da comunicação é colocada no recetor, que funciona, praticamente, como uma estação de tratamento de informação, modelando-a, compondo-a de acordo com as suas inclinações pessoais, o seu passado, o seu interesse, a sua noção de autoimportância, os seus mecanismos de defesa do ego, em suma, as suas escolhas. Muitas vezes, estas escolhas não são conscientes. O resultado final de todo este processo é uma resposta, sendo esta resposta acompanhada por uma pegada emocional. E como se transforma a pegada? Ao longo dos séculos, inúmeras religiões, correntes filosóficas e ciências comportamentais têm procurado responder a esta questão através de inúmeras estratégias e conceitos mais ou menos operativos.

No passado, alguém chegou mesmo a dizer: “Amai-vos uns aos outros”.

Em tempos tão cínicos, soa um pouco meloso, mas não está mal visto.

Anúncios