Fiquei mais chocado com os atentados de Paris do que com o de Beirute. Serei hipócrita?

Foi assim no Charlie Hebdo. Foi assim nos atentados de sexta-feira passada. De cada vez que há um atentado num local que nos é culturalmente próximo e todos nos consternamos, levantam-se logo vozes indignadas e moralizantes, gritando que a solidariedade não é igual para todos, que houve um atentado em Beirute e ninguém lhe ligou, que a vida vale mais em Paris do que no médio oriente, e por aí adiante.

Isto é um bocado irritante, porque uma pessoa fica consternada (com os atentados em Paris), e ainda por cima se sente culpada por não ficar consternada com outros acontecimentos similares (por exemplo, com o atentado em Beirute), aos quais, porque somos uns hipócritas, não damos tanta importância.

Como me apetece ficar consternado sem culpa nem a sensação de que sou um hipócrita, tentarei explicar:

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Desde o Charlie Hebdo aconteceram imensos atentados por esse mundo fora. Não vi nenhum destes arautos da boa consciência a mostrar consternação. Parece que a obrigação de nos consternamos com os atentados mais distantes e muito frequentes surge apenas quando a consternação geral por estes atentados mais próximos é activada. Ou seja, quando não há atentados em Paris, não há necessidade de me consternar com atentado nenhum, e ninguém repara nisso. Quando acontece em Paris ou outra cidade similar, devo consternar-me com todos. Será esta a regra? É difícil de perceber. Ou então, a solução é não se ficar consternado com atentado nenhum, e assim trataremos todos os atentados com uma indiferença niveladora.

Ma eu estou muito consternado com o que aconteceu em Paris e menos com o que aconteceu em Beirute. Serei hipócrita?

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Talvez não. Pus-me a pensar sobre o assunto, e, como sempre, correndo o risco de dizer asneiras, ocorreram-me analogias absurdas, mas que podem ser elucidativas. Cá vai uma: todos os dias há inúmeros acidentes na estrada por este país fora, são imensos, e todos me passam ao lado. No entanto, se alguém que eu conheço tem um acidente, eu fico consternado. Ora…mas então, não deveria ficar consternado com todos igualmente? Estarei a ser hipócrita?

Coro indignado: “Mas tu não conheces pessoalmente todos os parisienses, seu manipulador!”

Certo, mas sinto uma afinidade cultural com Paris que não sinto com Beirute. Já estive em Paris várias vezes, arranho umas palavras de francês, já li livros de autores franceses que me influenciaram imenso, tenho amigos que vivem em Paris. Podia aumentar a lista de afinidades ao infinito, mas acho que já se percebeu a ideia. É esta afinidade que faz com que eu sinta os atentados em Paris no meu corpo. E é a inexistência desta afinidade com Beirute que faz com que os lamentáveis atentados que lá aconteceram não me toquem tanto e passem discretos no rodapé do televisor. Isto não significa que os de Paris sejam mais importantes, ou que a vida em Paris seja mais valiosa, ou que não devamos dirigir a nossa consternação e o nosso repúdio para todas as atrocidades do mundo. Significa apenas que existem distâncias psicológicas, que poderão, sempre, ser superadas pelo advento de uma sincera fraternidade universal, a qual, neste mundo cada vez mais entrincheirado, não sei bem porquê, não me parece muito provável. Ainda que as nossas vozes devam sempre passar por cima dos muros, a verdade é que o nosso coração será sempre mais sensível aos que nos são mais próximos. E isto não é censurável.

Já agora, seguindo a mesma ordem de ideias (sempre em direcção ao absurdo), tenho a certeza de que os franceses ainda estão mais consternados do que os portugueses. Afinal, foi no seu país! Serão hipócritas? Ou deveriam consternar-se igualmente com os de Beirute? E, claro, os parisienses mais do que a generalidade dos franceses. Foi mesmo lá na cidade! E sem esquecer os habitantes dos bairros onde ocorreram os atentados, foi lá no bairro! E, claro, os familiares das pessoas que perderam a vida nos atentados devem estar mais consternadas com os atentados de Paris do que com o atentado de Beirute. É uma lógica até fácil de entender, não é? É a mesma lógica que explica a onda de solidariedade que aconteceu há uns anos em Portugal relativamente a Timor- Leste. Apesar de todas as atrocidades que ocorriam no mundo naquele tempo (há sempre atrocidades) escolhemos Timor. Fomos colectivamente hipócritas por focar a nossa atenção naquela e não nas outras todas, porque temos maior afinidade com aquele povo em particular?

Não nos sentimos igualmente próximos de todas as pessoas que existem, e isto também se aplica às percepções culturais.

3

A propósito: curiosamente, muita gente acenou com o atentado de Beirute, esquecendo-se de que no Iraque, no mesmo dia, também ocorreu um atentado. O que nos leva a esta simples e ingénua constatação: estamos constantemente a receber notícias de atentados no médio oriente. Talvez o do Iraque não tenha sido tão mencionado (que eu tenha visto), pelos defensores da consternação equitativa, como o de Beirute, simplesmente porque os atentados no Iraque são tão horrivelmente frequentes, que nos tornamos um pouco frios e distantes, não porque somos maus, mas porque, sendo completamente impotentes perante tanto sofrimento, temos de desligar um pouco os sensores, ou seria impossível ter alguma alegria neste mundo tão atribulado. Não é hipocrisia, é gestão (leia-se talvez protecção) emocional. Quando acontece mais perto (culturalmente ou geograficamente), esta gestão é impossível e a consternação irrompe espontaneamente. Porque a consternação não é racional. Se fosse, não seria consternação, seria calculismo.

Como diz o povo, quanto mais perto caem as bombas, mais as ouvimos.

Bem, eu sei lá. Pode ser esta a explicação. Ou então é hipocrisia. Ou então, somos apenas humanos.

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