Este fogo vê-se, queima e mata

2014-04-18 18.05.07

Enquanto Marcelo percorre o país, fazendo algo que nunca jamais nenhum dirigente político fez em Portugal, não hão-de faltar as almas cínicas dizendo que tudo não passa de uma encenação ou que é tudo um grande exagero.
No entanto, ao “habituem-se” do governo não se seguiu um desamerdem-se de Marcelo, e lá foi ele Portugal acima abraçar aquelas pessoas que eu, tu, os nossos amigos, todos conhecemos.

 
Sim, nós conhecemo-los

 
São nossos conhecidos, são da nossa família, Já os vimos noutras aldeias, outras vilas do país. Já falamos com eles, já lhes compramos mel, castanhas e vinho, já lhes dissemos olá e adeus. São estes portugueses ou familiares deles que morreram e estão em risco. É este Portugal que está em risco.
Quando digo que os conhecemos, refiro-me principalmente (mas não só) a nós, os que não nasceram nos centros urbanos, os da província ou os que lá têm fortes ligações. Sabemos bem quem são estas pessoas. São a nossa avó, o nosso avô, a nossa tia. Por isso é que nos dói tanto, e também, talvez, por isso doa mais a Marcelo. Ele também os conhece, são amigos de sempre, embora não se conheçam. Talvez, ainda por isso, não doa tanto aos partidos que apoiam o governo, cujos apoiantes estão em locais onde o fogo pouco chega. Não digo que não lhes sintam a dor e a indignação, de certeza que sim, mas não têm propriamente um incentivo político para as exprimir como costumavam fazer dantes.
Já eu, tu, conhecemo-las e reconhecemo-las melhor ainda quando as vemos chorar no ombro de Marcelo, esse ser tão surpreendente que, afinal, não se cansa de fazer coisas simples e óbvias.

 
“Vou dar-lhes um abraço.” E lá foi.

 
São estas pessoas, que têm vindo a ser rodeadas de matéria altamente inflamável – e, certamente, em muitos casos auto-rodearam-se, porque a certa altura lhes pareceu bom, rentável e ninguém com responsabilidades lhes disse que podia ser perigoso, pelo contrário – que nunca mais terão sossego.

 
O Verão está a chegar

 
Agora, a partir da primavera, estarão com o coração nas mãos até outubro, novembro, ou sabe-se lá quando terminarão estes verões que aí vêm. Deus queira que não, mas é possível que vastas áreas do centro e norte de Portugal passem a ser, durante longos períodos de tempo, zonas de perigo de morte.
Será assim para os residentes e para os visitantes – talvez estes encontrem outras opções para o turismo de natureza que não implique rodearem-se de matéria altamente inflamável, sob temperaturas escaldantes, num país com dificuldades primárias de organização logística, muitos maluquinhos e negócios de fogo pouco recomendáveis.
Todas estas pessoas nunca saberão quando irão ficar, a meio da noite, cercadas pelas chamas, ou numa estrada qualquer a caminho de qualquer lado, ou numa autoestrada a regressar de um almoço com amigos.

 
Agora, Portugal é assim. Não todo o Portugal, mas grande parte de Portugal.
Entretanto, a estas pessoas que conhecemos tão bem, a estas pessoas que também somos nós, dizem:

 
Emigrem.
Perdão, não foi isto, foi
Habituem-se.

 

P.S. Acabo de ver nas notícias que se reuniu um conselho de ministros extraordinários. Ficaram reunidos durante 10 horas(!). Parece que, fundamentados na sua vasta experiência no assunto (vários são biólogos, engenheiros florestais, especialistas em fogo etc), aprovaram umas medidas. É caso para dizer: são mesmo extraordinários!

 
P.S. 2 Notei também com alívio que o ministro nr.º 1 conseguiu finalmente acertar com a forma do arco nas sobrancelhas que lhe dá um ar tristonho e combalido.

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