***Espreguiçando-se***

Vou dizendo já, creio nas mudanças climáticas. Bem sei que muita gente não crê. Estão no seu direito. Eu cá creio e preocupo-me desde pequenino com as condições de salubridade (mesmo emocional) deste sítio em que vivemos. Sim, porque estas preocupações já são antigas. No entanto (infelizmente para a humanidade, que desta forma fica privada do meu precioso contributo para a tão urgente construção do paraíso na terra) sou um bocado dado à preguiça. Assim, encontro consolo em ir abafando a minha indignação com o estado do mundo com cobertores, enquanto visualizo o casados à primeira vista, entre outras novelas da atualidade.

Mas nem todos somos assim.

Alguns de nós, vendo que uma coisa está mal, não descansam enquanto não alarmam toda a gente. Como aquela miúda irritante, a Greta.

(só o nome me faz calafrios)

Ela é tão irritante que me dou ao trabalho de me sentar no sofá com o cobertor nas pernas e escrever este texto sobre ela.

Só para comparar, não me dei a esse trabalho quando:

  • Vi nas notícias que a última década bateu recordes de temperatura;
  • Percorri o país e constatei que nos últimos 20 anos ocorreu, silenciosamente, lentamente, uma revolução florestal (engulo a indignação e sigo conduzindo);
  • Ouvi na rádio que a seca, provavelmente, já não é a exceção, e sim a regra (bem sei que a chuva é uma chatice, mas beber, cozinhar e tomar banho sempre são coisas agradáveis de se fazer).
  • Ou quando tivemos ondas de calor mortíferas em junho e em outubro (que, já agora, em combinação com os belos eucaliptos, sub-repticiamente mencionados no ponto 2, produzem fogos de se lhes tirar o chapéu)

Tudo isto eu fui capaz de acondicionar debaixo da manta. Mas esta irritante desta Greta não. Há qualquer coisa nela que me tira do sério. É visceral, uma onda de raiva e indignação que não contenho.

Vou tentar exprimir esta emoção de forma ordeira, através de palavras civilizadas:

  • Mas quem pensa ela que é??
  • Vai para as aulas pirralha!
  • Isto é um embuste para ganhar dinheiro!
  • Vai apanhar plástico!
  • Quer mudar o mundo com queixumes!
  • Vais para Madrid de burro!
  • (risos sarcásticos, vestes rasgadas, dentes que rangem)
  • ARGHHHHHHHH!
  • (Perdão, a raiva incontida inibiu-me a eloquência no ponto anterior)

(respiro fundo)

Mas.

Ainda com a espuma a escorrer-me dos cantos da boca, refleti:

“Por Thor…porque sinto tanta raiva desta adolescente, que nem sequer conheço, e que, até ver, pode nem mudar nada, pode ser irritante (e é, que diabos!), mas também não me parece que vá estragar alguma coisa com as suas lamúrias supostamente exageradas e desajustadas. Pelo contrário, pode estar a contribuir para persuadir as novas gerações que aí vêm, essas mentes que todos dizemos tantas vezes estarem alienadas do mundo real. De onde vem este sentimento tão forte e tão visceral?

Foi então que meus olhos se abriram um pouco e, por uma pequena fenda, um fio de luz entrou.

Questionei-me:

Será que esta malvada Greta, na sua histeria, revela a minha própria inação, o meu conformismo, a minha resistência à mudança, a minha autoimportância- quem é esta pirralha para vir dar lições ao mundo, para mais de forma tão irritante e arrogante? Talvez esteja zangado com esta Greta como o grilo se zangava quando os miúdos lhe enfiavam uma palhinha pela casa dentro, obrigando-o a sair do seu buraco tão confortável (neste caso, admito que o grilo tivesse uma certa razão). Talvez a minha zanga venha da constatação (facilitada por esta Greta gritante) de que a mudança exige um sacrifício para o qual ninguém está preparado. Ou talvez me sinta acusado de cumplicidade com as condições que colocaram o mundo como ele está. Será que estou a viver uma espécie de alegoria da greta? Perdão…da gruta. Ou melhor, da caverna!

Na verdade, não sei bem o que é. Ou talvez saiba. Não sei se sei.

Seja como for, quando alguém nos causa uma reação tão visceral, pode ser vantajoso realizar pelo menos um pequeno exercício de introspeção em três simples passos:

  • Porque me sinto tão zangado com esta Greta? (ou com outra Greta qualquer)
  • Ignorar as respostas imediatas e voltar a perguntar:
  • Mas porquê mesmo?

No denso nevoeiro de indignação e raiva que anda no ar, é urgente abrir frinchas e espreitar por elas.

Como diz um velho amigo da humanidade:

There is a crack, a crack in everything. That’s how the light gets in.

 

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