Porque sou floxi…flexo…foxil… FLEXITARIANO!

Art of Balance

Zomb, Ilya, Art of Balance

Na verdade, só recentemente soube que este termo existe. Há alguns meses que me auto intitulo vegetariano com excepções. Ou seja…sou vegetariano, mas, uma vez por mês, permito-me comer carne e/ou peixe. Como um não fumador que numa festa lá crava um cigarro a alguém e depois esquece o assunto.

Afinal, já devemos ser alguns. E ainda bem. Há vários motivos para se ser veg… perdão…fonixteriano. Depois de explorados, uma pessoa dá  por si a perguntar-se: mas afinal, que razões existem para não se ser felixoteriano? Correndo o risco de o estragar, pus-me a pensar no assunto e encontrei pelo menos três categorias de argumentos, cada uma delas suficiente – para algumas pessoas mas não para mim, que precisei de um incentivo maior – para mudar de vida gastronómica. As três juntas constituem um tridente imbatível. Mas claro, há ideias que são tão boas que nos recusamos a prestar-lhes atenção porque vão deixar rasto. Seguem elas:

1 – O ARGUMENTO DA “CARNE FAZ MAL!”

Na verdade, este não me diz muito. O meu corpo gosta de tudo e não é esquisito. Tanto absorve um bife do lombo como um rebento de soja. No entanto, para muitas pessoas, este é o motivo fundamental, muito embora seja, geralmente, limitado a carnes vermelhas e por aí além. Não sei, não percebo nada de nutrição, mas, como se diz, é fazer as contas. Ainda na linha deste argumento, existem aqueles estudos que afirmam que os humanos são originalmente vegetarianos e não estão biologicamente preparados para a carne ou o peixe. Para ilustrar esta ideia, coloque-se uma pessoa num curral com uma vaca, sem qualquer tipo de instrumento ou tecnologia (como a capacidade de acender uma fogueira ou uma faca afiada) e diga-se-lhe: agora trata lá de comer essa vaca, sem garras nem caninos especialmente desenvolvidos. Enfim, segundo este argumento, foi a tecnologia que permitiu aos humanos tornarem-se omnívoros. Eu, na verdade, não sei. É o que se diz. É evidente que o mesmo exemplo não serve para os peixes, os ovos, ou animais mais pequeninos e tenros, como as lagartixas ou os insectos. O que sei é que o meu corpo, apesar de gostar imenso de carne e peixe, anda feliz com esta minha opção de me tornar prefixotariano. E quer continuar. Adiante.

2 – O ARGUMENTO DA CRUELDADE ANIMAL

Este é delicado. A mim já me toca mais. Quando era miúdo e a minha avó se punha a matar frangos, mandava-me para longe, porque supostamente a “pena” que eu sentia deles dificultava-lhe o trabalho. Pelo que percebo agora, eles viam-me como um aliado e resistiam mais, esperando que eu fosse lá salva-los. Como se a minha avó fosse permitir uma coisa dessas. Ali, naquele galinheiro, era ela quem controlava o destino, a vida, a morte. E (perdoem-me os defensores dos animais mais e menos radicais, por quem tenho muito respeito) estava bem assim. E claro, apesar da tal “pena”, no fim, eu lá absorvia os frangos todo contente, tornando-os parte do meu próprio corpo, perpetuando, através deste ser individual e insignificante que sou, essa coisa inefável e inexprimível que é a Vida. Ou seja, comia-os. Mas isto, confesso, apesar da pena que sentia dos frangos, não me impressionava assim tanto. É o mesmo sentimento que tenho por uma zebra que é caçada por uma leoa na TV (sim, porque à savana eu nunca fui, embora em criança tenha tentado arrancar um rato da boca do gato lá de casa, sem sucesso). Sinto pena, “Foge! Corre, corre, oh não!”, mas quem sou eu para discutir as soluções da natureza? A vida propaga-se através da absorção de formas de energia por outras, e isto está para além de qualquer conceito de bem e mal. Bem sei que tudo isto é discutível, não é como se tivesse ideias definitivas sobre o assunto.

O que não é discutível é crueldade industrial com que os animais são tratados para alimentar tantos humanos ávidos de carne e peixe. É fazer as contas, como quem diz, é procurar no Google e ver as galinhas serem aspiradas por uma máquina, que as recolhe e envia diretamente para uma linha de produção onde os pescoços são cortados e as penas arrancadas. Ou aquelas gaiolas onde os porcos crescem, tão apertadas que os corpos se deformam. Há imensos exemplos, toda a gente sabe como é. Para mim (não pretendo que isto seja uma verdade universal) isto é diferente da dona Deolinda que criou um porco, lhe deu um nome, e ao fim de uns anos lá o matou no meio de grande festa e uma lágrima no canto do olho porque afinal o Eustácio já era um amigo lá da casa. A dona Deolinda aproxima-se mais daqueles nativos americanos que matavam os búfalos, pediam desculpa, agradeciam ao espírito do animal e lá o absorviam. A industrialização da morte é a antítese disso e implica uma instrumentalização, uma alienação, um desrespeito total e absoluto pela Vida. Mas a avidez de tantos milhares de milhões de humanos desejosos de carne e peixe exige a industrialização, e a industrialização exige a alienação (e a alienação, uma vez instalada, dá um pontapé no rabo à consciência.)

E, finalmente, a gota de água que faltava.

3 – O ARGUMENTO DA SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL

Confesso que, apesar da indignação que sinto com a industrialização da morte, e do bem que o meu corpo se sente como metafisicotariano, estes argumentos não foram, durante muito tempo, suficientes. O meu corpo, essa criança mal-educada, adora carne e de peixe, que há-de fazer? Mas é assim a mudança: um dos lados vai pesando mais e mais, até o peso ser suficiente para levar o prato da novidade para o outro lado, e, de repente, lá no prato tenho rodelas de curgete (vai aprender a escrever courgette!) em vez de lombinhos de porco. E tudo muda.

O argumento que me tornou fleximaxitoriano foi o da sustentabilidade ambiental. Quando soube que a floresta amazónica (e tantas outras) está a ser derrubada – ei, é da floresta amazónica que estamos a falar! – fundamentalmente para produção agrícola que serve para alimentar a produção agro- pecuária, algo clicou cá dentro. O consumo exagerado de carne é absolutamente insustentável, desde logo porque duplica o espaço necessário para o cultivo de alimentos. Isto sem falar das emissões de metano (não consigo deixar de me rir ao pensar nelas, é como se fosse a grande vingança das vacas), ou dos consumos astronómicos de água necessários para, por exemplo, produzir um hambúrguer. (Não sei quais são, não me lembro, mas são chocantes, informe-se se faz favor.) Apesar da falta de eloquência aqui nos detalhes estatísticos, estou convencido que o consumo sôfrego de carne e peixe é um dos comportamentos mais decisivos no choque ambiental que os humanos estão a infligir ao planeta.

Há coisas que só conseguimos fazer de olhos fechados, não é?

Por tudo isto, decidi tornar-me floxitariano. Porque gosto e respeito muito o mundo em que vivemos, (basta olhar para os outros para ver como este é especial), não quero participar nesse KO planetário que lhe está a ser aplicado. E isto, gente, é apenas o começo. O abrir dos olhos é uma coisa que nunca mais se acaba.

Agora vou dar um afago à Terra e pedir desculpas.

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